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26.3.06

sem título não é um título

Busco ser digno da poesia, que em timbre brasileiro lato escreve-se comigo, escreve-se com o mundo, escreve-se com aquele que são muitos (Elohim).
E deixo-me ir deste mundo cão, pois no fim da tarde minh'alma também se põe...
espero na porta a chegada de meu dono

o dharma da poesia

inventar as palavras sagradas para o nosso tempo, kaliyuga em transição civilizatória, em timbre brasileiro lato

Salve as almas

É vovó Maria Conga das Almas, uma santa senhora de Deus, quem está dando à luz meu espírito imortal e eterno nos desafios de minha alma tão antiga neste corpo de terra, forjado como barro para ser o ilê das antigas tradições entre os homens, jamais interrompidas, de onde emana em uma e mesma vibração, a expressão fluente da diversidade divina através de suas leis eternas.
E a rosa mística de meu coração, a flor de lótus de doze pétalas de meu ser eterno imortal e permanente, dedico eternamente à vovó maria conga das almas, minha mãe espiritual mística santa e de magia, e ofereço esta flor ao mundo para que a Terra mística e o planeta Terra tornem-se um só, como una é a plenitude do infinito sem início...
Que assim seja graças a Deus

carta cigana

Kaliyuga em transição civilizatória

Da estrada santa

Guido o Velho, cigano que guarda meus caminhos em nossa sanga, que eu seja digno de sua presença em minha coroa, e juntos possamos honrar nosso povo cigano ancestral...

Guido o Velho, cigano de beira de estrada, cigano de beira de rio, cigano de beirada de precipício, da escola da vida de muitas encarnações, cigano bem vindo de muitos lares, de muitas mulheres e poucos amores, com a alma repleta de chão, sabedor das línguas e seus sotaques, da arte do punhal e seus dois lados, dos desafios da palavra e seus dois mil lados, conhece o caminho de volta, atravessou o labirinto, velho caminhante de olhos escuros e uma pequena noite no olhar, do conclave dos sacis, parceiro dos cegos violeiros e do povo da encruza, o canto é eterno, o cantador apenas seu servo...
Guido o Velho, celebramos nosso Deus na floresta onde encontro em silêncio as leis internas da consciência, celebramos nosso Deus tornando sagrada a palavra pela poesia...
E entre outros de seu povo chamam-lhe o velho do oráculo, e lhe estendem a mão, e mesmo velho mesmo as mais belas entre elas lhe estendem as mãos...
E as cartas ciganas nos oferecem a oportunidade de cumprir um de nossos deveres prescritos, qual seja o de ser a expressão fluente da diversidade divina através de suas leis eternas...

Louvado seja nosso Deus por todos os seus nomes povos e aldeias
E Deus tenha misericórdia deste velho aprendiz.

Da Estrada Santa

Kaliyuga. Da Estrada Santa

Eu vou pela beira da estrada
Eu vou pela beira do rio
Quando chega na beirada
Eu vôo pelo precipício...

Da tradição dos ciganos cantadores, dos cegos violeiros, dos poetas miseráveis, dos que cantam na feira e catam seus restos com dignidade, dos que seguem o circo mas não para sempre, dos que usam da mão de exu na viola, no tambor e na navalha, dos que usam a mão de exu na despedida e no baralho, dos que pedem licensa nas encruzas e não demoram nas esquinas, dos que descansam nos telhados,
Da tradição dos que não ganham, da tradição dos que não perdem, da tradição dos que apenas trocam, dos que tocam o fundo do poço porque anseiam pela água clara e mais pura, mesmo que morram soterrados, e seus corpos na terra, despidos, junto da raiz do mais antigo baobá, crescendo até que transpasse a própria orbe da terra, e cresça ainda mais agora indiferenciado de tudo na escuridão, que sejamos dignos desta tradição, porque do lado de cá é tudo de barro, mas do outro lado o caminho não tem chão, e lá só chega o que o vento carrega, o que escorre na água, e lá só permanece o que o fogo não queima, porque também é fogo, e acaso entrar em desobediência o que não é fogo, vai arder em chama severa, e retornar à forja, calar-se em dor...

Os nomes de Deus em timbre brasileiro lato

Kaliyuga em transição civilizatória
Da calunga mística e santa e de magia

Exu caveira, joão dos mortos, joão dos renascidos, santo devoto dos esfarrapados, dos fudidos e mal pagos, dos encarcerados,
ao seu altar os humilhados erguem os olhos de novo, e se levantam do chão,
que sejamos um na encruza,
que sejamos um na calunga,
no abraço dos afogados, no tiro de misericórdia, na extrema unção dos desesperados,
exu caveira, joão da outra banda, mão severa de navalha, mão de bênção, lei da salva, mãe de abrigo para o filho de escurraça, mãe de colo para o filho de pirraça, mãe de fiar junto dos canalhas, nó de corda de enforcado, demônio dos profetas, lúcifer do cemitério, mercúrio dos silenciados, senhor das encruzilhadas, separa o que é injusto de estar junto, repara e ajunta até ficar justo de novo, diabo de ogum, anjo do ventre da morte, poeta das sibilas, anjo satã, santo adversário...
salve a lei de quimba...

Os nomes de Deus em timbre brasileiro lato

Kaliyuga
Da encruza mística e santa e de magia

Zé dos pilantras, satã de madame,da vadiagem santa, do ócio criativo,
que sejamos um na encruza, batuqueiro de roda de santo, partideiro de ponto cantado, dança como mulher, luta como homem, capoeira nataraja, bate o candongueiro, joga o seu baralho, risca sua pemba, dorme no telhado, criolo de cacurucaia, marginália sagrada, da laia de lázaro, anjo quilombola, da vanguarda macumbeira, mandingueiro de reza e curimba, pemba e tambor, da conjura dos pretos-velhos, samba de encantado, gênio do que o povo sabe...
Salve a lei de Quimba...

invocação de cristo

Cristo dos leprosos
Cristo dos enfermos
Cristo dos cegos e aleijados
Cristo das putas
Cristo dos ladrões
Cristo da Ressurreição...

Vinde até nós e dai-nos a vida eterna.

Amém

17.2.06

orat

Que deus esteja conosco por todos os seus santos nomes
e que sua Presença entre nós seja louvada em Labor e Oração,
E que nosso Senhor tenha misericórdia deste velho aprendiz,
Que assim seja graças a Deus.

31.12.05

vênus gangrena

de buceta mal lavada escorrendo pus e porra, os grandes lábios mutilados que não cicatrizam nunca,se masturba com gilete urrando de prazer e sonha em acordar cuspindo os dentes e se excita com o fedor dos cantos urinados por mendigos e cães com sarna...

aforismas

O que nos oprime é a semelhança entre os que se pretendem inimigos.

sem título não é um título

não me interessa a especificidade do ofício.
limito-me ao ruído branco que a poesia amplifica.

harmonia

"Simultaneidade sonora (acordes) e suas possibilidades de encadeamento, tendo em conta seus valores arquitetônicos, melódicos e rítmicos, e suas relações de equilíbrio".
Schoenberg

sem título

E foram tantas as versões
que eu preferi o silêncio,
ou ainda, um verso simples :
palavras só convencem aos que faltam palavras.

26.12.05

tornar-se quem nasceste para ser

Quimbandeiro de calunga, partideiro de ponto cantado, curandeiro de erva de fumo, de erva mascada, de banho de erva, fala na língua da caboclada do mato, bate tambor na beira do mar e já enamorou sereia Ijexá elas dançam em roda de saia rendada, da falange do povo da rua não carrega embrulho

ponto cantado de partideiro

Olha a pinta daquele malandro
com aquela mulambo do lado
tem um cão vira -lata como guia
e uma cabana sem cercado
quando passam em uma encruza
ela sempre consulta o seu carteado

Olha a pinta daquele malandro
com aquela mulambo do lado
tem ervas frescas na cozinha
tem ginga de preta no rebolado
quando estão com alguma quizila
eles usam vela e o ponto riscado

5.12.05

salvem

umbanda querida candomblé misterioso

13.11.05

versar de improviso

saravá pelo verso de improviso toda lua cheia deveria ter um nome diferente daquela que vazou senão os rios paravam de correr saravá pelo rio que corre tem que ter outro nome senão os mares eram um só o mesmo que afoga o mesmo que desgraça pescador o mesmo do banho do descarrêgo saravá bruxaria do mar esse povo de netuno que o mar mareja nos olhos de tontura essas filhas de Senhora D'Água que agente entra no fundo e não quer mais voltar na praia quando quer voltar já não pode mais amor de mar não é que nem de mãe quem rege é Senhora d'Água.

improviso

desses dias de lua plena que vazam primavera média às vezes um frio que retorna uma ânsia de queimar incenso de queimar a alma pelo fogo dos sábios de marcar na carne seu chamado com ferro cor e fogo e tornar-se baco mesmo indigno lamber sua buceta que nem machucado correr até o mar sangrando o filho morto na barriga cair gritando pelo dever de se tornar quem nasceste para ser e assim mesmo esperar pela crescente e levantar-se gritando pelo direito de tornar-se quem nasceste para ser e assim mesmo celebrar em seu mergulho no mar de Senhora o respeito pela alma dos afogados